top of page

Por que o brincar é essencial para o desenvolvimento cognitivo nas férias.

  • Foto do escritor: Alfabetiza Psicopclinica
    Alfabetiza Psicopclinica
  • 5 de jan.
  • 3 min de leitura
As férias costumam ser compreendidas como um tempo de pausa das obrigações escolares. No entanto, para o desenvolvimento infantil, esse período não representa uma interrupção dos processos cognitivos, emocionais e sociais. A criança continua aprendendo, organizando experiências, construindo sentidos e ampliando suas formas de estar no mundo. O que muda é o modo como esse desenvolvimento acontece — e o brincar passa a ocupar um lugar central.

Brincar é uma atividade fundante do desenvolvimento cognitivo. Não se trata apenas de entretenimento ou gasto de energia, mas de um processo complexo que envolve atenção, memória, linguagem, planejamento, imaginação e autorregulação emocional. Ao brincar, a criança experimenta possibilidades, testa hipóteses, cria narrativas internas, elabora regras e aprende a lidar com frustrações. Esses movimentos sustentam a construção do pensamento simbólico e lógico.

Durante o período letivo, a rotina da criança é organizada por horários, demandas e expectativas de desempenho. Nas férias, esse território se desloca: a criança passa a ocupar mais intensamente o espaço familiar e seus tempos se tornam mais fluidos. Esse deslocamento é fundamental, pois permite que o brincar aconteça de forma mais espontânea, menos dirigida e mais conectada às necessidades internas da criança.

Do ponto de vista emocional, o brincar funciona como um importante regulador psíquico. A cognição não se desenvolve separada da emoção.
Uma criança emocionalmente sobrecarregada, excessivamente estimulada ou constantemente cobrada tende a apresentar dificuldades de atenção, concentração e aprendizagem. O brincar oferece um espaço seguro para expressar sentimentos, elaborar vivências do ano escolar, reorganizar frustrações e recuperar o prazer de explorar.
É importante também ampliar o entendimento do que se reconhece como brincar. Muitas vezes, o brincar é associado apenas a atividades de grande movimento, como correr, pular ou brincar ao ar livre. Embora essas experiências sejam fundamentais, brincar também pode acontecer na quietude: na criação de histórias, em jogos de regras, em conversas imaginativas, no desenho, na pintura, na construção com objetos ou na escuta atenta de narrativas. Essas formas de brincar, mais silenciosas, exigem alto nível de elaboração cognitiva e contribuem significativamente para o desenvolvimento da linguagem, da atenção e da organização interna.
Nesse contexto, o papel do adulto durante as férias não é ocupar todo o tempo da criança com atividades planejadas, mas garantir um ambiente emocionalmente seguro para que o brincar aconteça.
Muitos adultos sentem dificuldade em brincar, não sabem como se aproximar ou acreditam que precisam ensinar algo o tempo todo. No entanto, mais do que conduzir, o adulto precisa estar disponível, presente e interessado. A qualidade do vínculo é mais importante do que a quantidade de estímulos oferecidos.
Quando a criança percebe que há espaço para brincar, criar e imaginar, ela constrói uma base cognitiva mais flexível, criativa e integrada emocionalmente.
O brincar vivido nas férias não é um tempo perdido, mas um investimento no desenvolvimento futuro. É nesse território de liberdade, vínculo e experiência que o pensamento se fortalece e o aprender se sustenta ao longo da vida.



PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento humano. Porto Alegre: AMGH, 2013.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: LTC, 1975.

ROSSETTI-FERREIRA, Clotilde. Redes de significações e o desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2004.

THIRIBA, Léa. Desemparedamento da infância. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Comentários


bottom of page